CIENTISTA DOS EUA FAZ TESE SOBRE FIM DA AMAZÔNIA SEM CONHECÊ-LA

Leonardo Cruz (da Folha de S.Paulo, em Londres)

Se nada for feito, em 15 anos a floresta amazônica terá sofrido danos irreparáveis e poderá desaparecer em até 50 anos. Essa foi a tese apresentada nesta semana em um congresso de geologia na Escócia pelo norte-americano James Alcock, professor de ciências ambientais da Universidade do Estado da Pensilvânia desde 1989.

Detalhe: Alcock nunca esteve na Amazônia, e seu estudo foi feito com base em dados publicados em revistas científicas, como a "Nature" e a "Science". O professor chegou ao resultado após fazer projeções matemáticas considerando um índice fixo de devastação de 1% ao ano.

Em entrevista à Folha, por telefone, Alcock admitiu que sua projeção sobre o desmatamento da floresta "poderia ter sido mais precisa". "Faltaram alguns dados como o grau de sensibilidade da floresta a alterações dos índices pluviométricos", afirmou o pesquisador. Segundo ele, o trabalho apresentado em Edimburgo surgiu como projeto para uma das aulas de seu curso de geociências na universidade americana.

Questionado sobre se publicaria o trabalho em alguma revista científica, Alcock respondeu: "Estou tentando, mas, como não sou um especialista em floresta amazônica, ainda não obtive sucesso".

Doutor em geologia pela Universidade da Pensilvânia, James Alcock é um especialista em petrologia (estudo de pedras) e tem artigos publicados em jornais e revistas geológicas, mas nenhum específico sobre a Amazônia.

"Minha intenção ao apresentar essa projeção é estimular pesquisas nessa área. É também um apelo às autoridades para que sejam tomadas medidas enérgicas para frear o desmatamento."

Com esse levantamento, Alcock espera desenvolver novos trabalhos sobre a Amazônia e quer ir à floresta para poder conduzir pesquisas de campo.

A projeção apresentada pelo pesquisador ganhou repercussão na mídia. O jornal escocês "The Scotsman" publicou texto com o título "Floresta amazônica se aproxima de ponto sem volta". A rede britânica BBC também fez reportagem apresentando a teoria de Alcock, mas a tese era contestada por Philip Stott, professor de biogeografia da Universidade de Londres. Stott definiu o estudo de Alcock como "simplista".

No Brasil, o Ministério da Ciência e Tecnologia também condenou o estudo de Alcock.

Catástrofe amazônica

Não é o primeiro estudo a fazer previsões catastrofistas. No último ano, dois estudos feitos por pesquisadores do Brasil e dos EUA, publicados na "Nature" e na "Science", faziam previsões negras sobre o futuro da floresta após a implantação dos "eixos de desenvolvimento" do Avança Brasil, o megaprograma de infra-estrutura do governo federal.

Um deles, publicado em janeiro na "Science" pelo grupo do americano William Laurance, do Inpa (Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia), afirma que 42% da floresta poderiam ser destruídos até 2020 em consequência da pavimentação de rodovias prevista no Avança Brasil.

O governo rechaçou prontamente o trabalho. O Ministério da Ciência e Tecnologia, ao qual o Inpa é vinculado, classificou-o de "futurologia ecológica". Mas o Ministério do Planejamento, responsável pelo Avança Brasil, contratou uma revisão do estudo de impacto ambiental dos eixos, que deveria ficar pronta este ano.

O congresso de Edimburgo, que começou na segunda e termina hoje, é organizado pela Sociedade Geológica da América e pela Sociedade Geológica de Londres e conta com a presença de cerca de cem estudiosos do setor.